Supermito

All-Star Superman1 e Hercules e a Hidra2.
Verdade, justiça e The American Way.
A personagem criada em 1932 por Jerry Siegel e Joe Shuster pode ser encarada como a personificação do pensamento modernista do século XX. Embora o termo, deva a sua origem a Friedrich Nietzsche em “Assim Falou Zaratustra”, a influência do Übermensch na criação do Super-Homem é discutível, podendo mesmo ser argumentado que este era a antítese do super-homem de Nietzche: enquanto o último transcendia as limitações da sociedade, religião e moralidade convencional, o Super-Homem de Siegel e Shuster, embora extraterrestre, adopta as normas sociais e morais da sociedade que o acolhe.
Não obstante, a noção da perfeição era um motivo comum nos anos 30. Os conceitos de eugenia eram explorados não só na Alemanha de Adolf Hitler assim como na própria America, com as experiências de Charles Davenport. Foi nesta amalgama de nacionalismo, procura de um ideal humano e Grande Depressão que estes conceitos se uniram às revistas pulp e surgiu o conceito de super-herói, sendo Super-Homem e Batman as suas representações mais resistentes ao tempo.
Batman simbolizava o potencial humano que se ascendia da miséria e da criminalidade, que conseguia ultrapassar os limites da própria capacidade humana. Super-Homem, por outro lado, era a visão utópica do ideal humano, o grande representante do espirito modernista, particularmente o partilhado pelos arquitectos do inicio do século XX.
De facto, uma das histórias iniciais por Siegel e Schuster mostravam um Super-Homem que combatia a delinquência juvenil através da destruição dos bairros degradados onde estes viviam, de forma a que as autoridades fossem forçadas a construir novas instalações e bairros sociais “decentes”3. O final desta história mostra um novo bairro social, um bairro reminescente das criações do urbanista Robert Moses, símbolo do modernismo Nova Iorquino.
Superman in the Slums, Action Comics #8, 1939.
Com a Segunda Grande Guerra e, posteriormente, a Guerra Fria, a atenção do Super-Homem virou-se para os problemas externos, tendo a sua intervenção nestes aumentando progressivamente. O herói passou a confrontar-se com novas ameaças tecnológicas e simbólicas de ameaça nuclear real, e foi aqui que a personagem se definiu totalmente pró-Americana com a sua declaração de que lutava uma “batalha eterna pela justiça, verdade, e o Estilo Americano de Vida”
A par com este crescimento patriótico, também os poderes da própria personagem foram aumentado, possivelmente como um reflexo da hegemonia Norte-Americana: embora nos seus primórdios, Super-Homem apenas conseguia levantar um carro com as mãos e saltar cerca de um 1km, nos anos 50 este já era capaz de voar, de sobreviver ataques nucleares, era dotado de visão raio-x, etc. Tinha-se transformado na personificação do poder económico e militar dos Estados Unidos, e o símbolo de uma nação invencível.
No entanto, com o declínio da “ameaça soviética” durante os anos 80, esta visão de um Super- Homem super-poderoso perdeu pertinência com o seu público. A própria personagem perdeu relevância face a uma sociedade distante do forte patriotismo vivido desde a Grande Depressão à Guerra Fria. Esta questão, aliada a um declínio de vendas, levaram a uma grande diminuição nos poderes da personagem na chamada “Era Moderna”, ao mesmo tempo foram adicionadas características ao personagem que fizessem sobressair a sua humanidade, aproximando-a dos leitores.
Monomitos
Super-Homem é, para além da personagem de banda-desenhada, mais uma iteração de um arquétipo que tem sido repetido e revivido desde o registo histórico humano: o do herói. Este herói, como descrito por Joseph Campbell em “O Herói de Mil Faces”, atravessa um padrão cíclico narrativo que manifesta a sua jornada, criando um “Monomito”. Temos como exemplo destes monomitos as narrativas de Beowulf, Jesus Cristo, Gilgamesh, Ulisses e, em particular para esta análise, a de Hercules.
A personagem de Hercules é interessante quando contraposta com a de Super-Homem. É visível que a última é uma manifestação moderna da primeira: um ser de força mítica capaz de grandes feitos, mas o arco narrativo das duas personagens e a sua própria evolução até a sua transformação em mitologia apresenta similaridades para além das aparentes.
O que se conhece actualmente do mito de Hercules é uma amalgama de mitologia grega e romana, escrita e oral, assim como obras de literatura e teatro criadas posteriormente. De facto, a própria divindade atribuída à personagem na mitologia grega é posta em causa por linguistas e historiadores, dado que a palavra “Hercules” (Heracles, no original grego) significará provavelmente “oferta gloriosa de Hera”, e a nenhum deus grego havia sido atribuído um nome derivado do nome de um outro deus ou deusa.
A lenda e mito de Hercules, quando adoptada pelos Romanos, foi também sujeita a diversas alterações, sendo que a mais significativa foi a de o elevar a um nível de divindade passível de adoração, estatuto que lhe foi novamente retirado com a Cristianização do império Romano. Com a literatura medieval, o mito herculano havia sido submetido a diversas liberdades criativas e nem as tentativas Renascentistas de recuperar o mito grego original conseguiram separar a personagem do romantismo a que lhe havia sido associado: a de uma figura isenta de falhas, perfeita e que transcende a sua mortalidade. Esta foi a base perfeita para o epítome dos ideias de perfeição e justiça que seria a personagem de Super-Homem.
“A ilusão de um presente contínuo”
Esta nova personificação de Hercules no século XX sofre de uma dificuldade face à sua antecedente: Embora a narrativa de Hercules tenha sofrido alterações e adaptações ao longo da sua história, ela manteve um arco narrativo constante que começa no nascimento e termina na sua morte (ou eventual divinização). Por outro lado, a personagem de Super-Homem, embora tendo um nascimento, não prevê um final, mas está envolvida numa narrativa cíclica de eternos trabalhos.
É esta característica cíclica que, para Umberto Eco4, é a essência da imortalidade da personagem. Super-Homem, segundo Eco, não poderá avançar nas suas relações com Lois Lane, por exemplo, pois isto seria um passo “para a sua eventual morte” e seria criado um marco que não poderia ser reversível. A personagem não poderá também reconhecer actos passados, pois este reconhecimento de um número finito de eventos quebraria com a ilusão. É esta inexistência de tempo a que Eco chama de uma “ilusão de um presente contínuo”.
No entanto, nos últimos anos após a análise de Umberto Eco, Super-Homem avançou realmente no seu relacionamento com Lois Lane e acabou inclusive por morrer, embora não permanentemente, como é normal acontecer nos comics americanos. Pois, nestas narrativas cíclicas, tal como noutros populares super-heróis e histórias semelhantes, há um avanço de narrativa aparente e que os personagens reconhecem, recordando momentos passados, mas, ao mesmo tempo, vivendo numa aparente imortalidade, onde o tempo flui mas não traz reais consequências (como o envelhecimento dos personagens, descendência, etc). Este equilíbrio existe para uma perpétua identificação com o leitor, mantendo-o num estado onírico de projecção e empatia com as personagens, ao mesmo tempo atribuindo-lhes características humanizantes: calcanhares de Aquiles utlizados como estratégias para manter um suspense of disbelief.
Mas é esta perpetuação narrativa que impede um término da jornada do herói mítico, apenas permitindo mini-jornadas, tais como os trabalhos de Hércules, mas sempre sem consequências duradoiras.
Super-Homem Pós-Moderno
É com consciência destas dificuldades face a personagens como a do Super-Homem: míticas mas possivelmente descontextualizadas, que autores contemporâneos reinventam ou reinterpretam a visão destas mesmas. Tal é o caso com All-Star Superman.
Aqui, nesta história que ignora o cânon da publicação regular do Super-Homem, apresenta-nos uma personagem de consciência contemporânea do símbolo moderno de que foi. Uma atitude de irreverência para com o seu passado e, ao mesmo tempo, uma total aceitação do mesmo, manifesto na própria capa do primeiro número: O super-herói quebra a quarta-parede, olhando o seu público mas espreitando sobre o ombro, de costas para este e de postura descontraída, relaxada, tudo isto sentado nas nuvens e olhando de cima a metrópole humana.
A história em si conta-nos dos 12 trabalhos do Super-Homem, um reconhecimento por parte dos autores à personagem mítica que o antecedeu, e aqui, tendo começo da narrativa no contexto mítico do Super-Homem: vivendo uma vida dupla entre um Clark Kent que procura a atenção de uma Lois Lane apaixonada pelo seu alter-ego, este ultrapassa as barreiras da narrativa cíclica e caminha para um fim de uma jornada: este revela a sua identidade secreta a Lois Lane, confronta adversários passados e termina numa morte altruística voando em direcção ao próprio sol, fundindo-se com este, tal como Hercules atinge o Olimpo. É, no fundo, o “Regresso a Casa” descrito na Jornada do Herói.
Qual Super-Homem?
Este All-Star Superman é o sumo de 75 anos da história do super-herói e uma tentativa de lhe criar todo um arco narrativo a par com a figura mitológica grega que lhe antecedeu. No entanto, esta é apenas uma encarnação de uma figura que é representada em diversos media: desde a literatura, ao cinema, à rádio e à televisão. Na construção do mito do Super-Homem, qual é a que a personificação dominante? É aquela criada por Jerry Siegel e Joe Shuster ou a interpretada por Christopher Reeve? Ou serão todas elas que criam uma ideia de personagem que todas as novas histórias vão construindo e contribuindo? E será que esta mitologia se encerrará como, de alguma forma, a de Hercules se encerrou, mas mantendo-se passível de futuras interpretações?
Possivelmente será esta característica de perpétua continuidade da personagem, sem um final narrativo, que permite que esta se reveja e se adapte de acordo com a sociedade que a continua. Assim, tal como tivemos um Super-Homem que reagiu à Segunda Guerra-Mundial, ou à Guerra Fria, ou à crise existencial yuppie americana dos anos 80, também teremos um Super-Homem que seja uma reacção à crise económica do final da primeira década do século XXI, e assim por adiante. É uma imortalidade que se manifesta como um reflexo da nossa cultura (ou da cultura Ocidental e, sobretudo, Norte-Americana): em constante mutação.5
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Capa de All-Star Superman #1 por Grant Morrison, Frank Quitely e Jamie Grant. Janeiro 2006. ↩
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Hercules e a Hidra (c. 1475), de Antonio Pollaiolo - Tempera em madeira, 17 x 12 cm, Galeria Uffizi, Florença, Itália ↩
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Siegel, Jerry & Shuster, Joen, Superman in the Slums, Action Comics #8, 1939 ↩
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Bondanella, Peter, Umberto Eco and the Open Text: Semiotics, fiction, popular culture, Cambridge University Press 1997 ↩
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Texto originalmente criado para Arte e Comunicação Multimédia. Mestrado Multimédia, FEUP 2011. Editado para o médio. ↩



